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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Voto consciente

Fonte: Rubem Amorese

Neste começo de ano, quero pensar no voto como “prática espiritual”. Enquanto tal, o voto é uma decisão, um propósito que nasce no coração e se manifesta em forma de oração -- ou de oração sem forma. Ele nem sempre é secreto, mas é sempre íntimo; um propósito que tomamos em relação a nós mesmos. Não valem essas promessas que uma mãe faz para o filho pagar.

Na Bíblia, ele aparece na forma de “promessa”: se o Senhor me der isso, eu faço aquilo. Porém, a melhor prática é a do voto incondicional: “Que darei ao Senhor pelos seus benefícios para comigo? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o seu povo” (Sl 116.12-14).

Encontro três lições nos verbos que Jesus usou para construir a “virada” da narrativa do filho pródigo (Lc 15.17-20).

Primeira: “o voto consciente acontece dentro de um discurso existencial”. “Caindo em si, disse.” A expressão aponta para o enredo, para a situação em que o rapaz estava mergulhado. Ele conseguiu, a duras penas, fazer a leitura da trama, do tecido em que estava envolvido, usando como referência “a casa do pai”. Então, o voto acontece para tirar as coisas dessa situação estagnada, “mal-parada”; acontece como resposta a essa nova consciência. E aqui, a vontade do pai, tão esquecida, negada e questionada, volta a valer; volta a ser o anelo daquela alma. E o voto se transforma em oração ao harmonizar-se com a vontade do Pai.

Segunda: “o voto consciente é um gesto de reconciliação”. “Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e lhe direi...” Reconciliação de quê? Bem, depende do que se estragou, do que se corrompeu. Depende do discurso que lemos, do diagnóstico feito. Depende do que significa a referência “na casa de meu pai” para nós. A maturidade cristã acontece, entretanto, quando aprendemos a dizer: “eu sei qual é a vontade do meu pai e também sei o quanto ela vai me custar. Mas levantar-me-ei e irei ter com ele”. Uma observação: o rapaz não disse “vou começar a pensar sobre isso”, mas “irei”. Chamo a atenção para a armadilha dos votos imensuráveis.

Terceiro: “o voto consciente consuma-se em ação”. “E, levantando-se, foi...” Estamos falando de “prática espiritual”, de oração; da presença de Deus na consciência que faz o autodiagnóstico (os trabalhadores do meu pai), na vontade conhecida (e agora desejada) e também no poder necessário para que o propósito tenha chance de sucesso. O voto consciente é mais que boa intenção; é atitude, ação que rompe círculos viciosos: “e, levantando-se, foi!”. Aleluia! A presença de Deus nessa hora torna possível o improvável; ela impõe a dimensão do milagre.

Como foi o caminho de volta daquele rapaz? Podemos imaginar um misto de incerteza e excitação. Mas a energia para cada passo vinha daquele momento sagrado.

Se, neste começo de ano, o Espírito nos sussurrar ao ouvido: “quantos trabalhadores do meu pai...”, então é tempo de “voto consciente”. O resultado é alentador: “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou”. Enquanto ainda estamos lendo o nosso duro “discurso existencial”, nosso pai já está saindo ao nosso encontro.
• Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários -- nem leigos, nem santos.

ruben@amorese.com.br

Voto de cajado

Política e religião são dimensões muito próximas e muito distintas ao mesmo tempo. Se a primeira cuida, em tese, do público, a segunda, também em princípio se preocupa com o privado. A questão é que na política sempre haverá uma dose de individualidade (porque há a ideologia, as opções fundamentais, a visão de mundo etc), na mesma proporção que a religião sempre será eivada do público e do coletivo (porque a fé tem, em si, a dimensão histórica). Daí o diálogo travado e, por lamentável que seja, a promiscuidade entre ambas. A relação entre trono e altar já configurou páginas sofríveis da história humana e já contribuiu desastrosamente para a má compreensão a política e para a nefasta instrumentalização da religião.

A democracia brasileira é muito jovem e, como tal, sujeita a muitas ameaças. Os antigos esquemas de tomada e manutenção do poder descobrem a cada eleição novos formatos para se tentar a subida pela rampa da autoridade constituída. Nessa busca quase que insana vale de tudo: promessas, arranjos, alianças, trocas, etc.

Um setor que conseguiu relativo êxito nessa nova configuração dos anos de abertura que se seguiram à ditadura militar das décadas de 60 a 80 foi o “mundo evangélico”. Quem não se lembra dos “pastores”, “irmãos”, “bispos” candidatos a tudo – vereadores, deputados, senadores etc? Não é nenhum esforço, também, recordar a imagem imperdoável que vem à mente quando se pronuncia a expressão “bancada evangélica”. Nada mais velhista e atrasado, senão corrupto e difamável, do que a representação político-partidária encabeçada pelos ditos “políticos evangélicos”.

Isso, curiosa e aparentemente, diminuiu bastante nesse pleito. Não se vê tanto, como antes se experimentava, o nome dos candidatos seguidos por suas credenciais religiosas. Não creio, todavia, que tenham buscado outros caminhos de servir à sociedade. Acredito, isto sim, que tenham reinventado estratégias para se manterem às margens dos caudalosos rios da política brasileira, que ainda sofrem penosamente a poluição da corrupção e da falta de seriedade e competência.

Até bem pouco tempo (se é que isso já teve fim), o que imperava na realidade política e eleitoral brasileira era o voto de cabresto. Um tradicional sistema de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos e utilização da máquina pública. Mecanismo recorrente nos setores mais pobres da sociedade, especialmente durante os primeiros anos da República. A figura central dessa prática – o coronel – era um grande fazendeiro que utilizava seu poder econômico para garantir a eleição dos candidatos que apoiava.

Nestas eleições, não tenho visto com a mesma freqüência os “irmãos” e “pastores” candidatos. Tenho notado, entretanto, os “pastores” e “bispos” que “apóiam” ou “indicam” seus candidatos.

Isto me parece, a exemplo do voto de cabresto dos coronéis da República , o “voto de cajado” dos comandantes do povo evangélico brasileiro.

O que parece que está acontecendo, salvo melhor juízo, é que os candidatos evangélicos agora têm duas caras. Uma para aparecer ao público de forma geral e outra para os “irmãos” da igreja. Para aqueles, se apresentam como qualquer um outro candidato, com projetos e promessas; para esses, se apresentam como os “escolhidos” das autoridades constituídas nas igrejas.

O problema, me parece, está na influência que exercem tais autoridades sobre o coletivo e na capacidade de decisão das pessoas. É bem sabido pelos estudiosos da sociologia e da psicologia da religião sobre a capacidade de manipulação (proposital ou não) que tais lideranças exercem sobre seus “rebanhos”. Aliás, é uma relação que precisa ser melhor compreendida entre a influência dos superiores e a permissividade dos conduzidos, que preferem uma voz de comando a uma verdadeira tomada de decisão na vida.

Esperaria de tais lideranças que soubessem se posicionar frente ao Estado e, profeticamente, conseguissem denunciar as mazelas de uma nação desigual e com tantos excluídos. Mas, ao invés disto, o que tenho visto é um esforço pela tomada de espaços nas esferas de governo para angariar benefícios particulares deste ou daquele grupo.

Sou cristão e, como tal, livre e responsável. Há sobre mim um pastor que me guia, mas não tem título eclesiástico ao lado do seu nome. Não quero que meu voto seja induzido por nenhum cajado que não a minha capacidade de escolha e de tomada de decisão.

Rev. Ricardo Lengruber Lobosco (pastor metodista) – colaboração do Rev. Ronan Boechat