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segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ARTE DE CUIDAR DOS ENFERMOS

Leonardo Boff*

Nos últimos anos tenho trabalhado de forma aprofundada a categoria do cuidado especialmente nos livros Saber cuidar e O cuidado necessário (Vozes).

O cuidado, mais que uma técnica ou uma virtude entre outras, representa uma arte e um paradigma novo de relação para com a natureza e com as relações humanas, amoroso, diligente e participativo.

Tenho tomado parte em muitos encontros e congressos de operadores da saúde, com os quais pude dialogar e aprender, pois o cuidado é a ética natural desta atividade tão sagrada. 

Retomo aqui algumas idéias referentes às  atitudes que devem estar presentes em quem cuida de enfermos, seja em casa, seja no hospital.

Vejamos algumas delas entre outras.

Compaixão: é a capacidade de colocar-se no lugar do outro e sentir com ele. Não dar-lhe a impressão que está só e entregue à sua própria dor. 

Toque da carícia essencial: tocar o outro é devolver-lhe  a certeza de que pertence à nossa humanidade. O toque da carícia é uma manifestação de amor. Muitas vezes, a doença é um sinal de que  o paciente quer se comunicar, falar e ser ouvido. Quer identificar um sentido na doença. O enfermeiro ou a enfermeira ou médico e a médica podem ajudá-lo a se abrir e a falar. Testemunha uma enfermeira: “Quando te toco, te cuido; quando te cuido, te toco; se és um idoso, te cuido quando estás cansado; te toco quando te abraço; te toco quando estás chorando; te cuido quando não estás mais podendo andar". 

Assistência judiciosa: O paciente precisa de ajuda, e a enfermeira ou o enfermeiro deseja cuidar. A convergência destes dois movimentos  gera a reciprocidade e a superação do sentimento de uma relação desigual. A assistência deve ser judiciosa: tudo o que o paciente pode fazer, incentivá-lo a fazer,  e assisti-lo somente quando já não o pode fazer por si mesmo.

Devolver-lhe  a confiança na vida: O que o paciente mais deseja é recuperar a saúde. Daí ser decisivo devolver-lhe a confiança na vida: em suas energias interiores, físicas, psíquicas e espirituais, pois elas atuam como verdadeiras medicinas. Incentivar gestos simbólicos, carregados de afeto. Não raro, os desenhos que a filhinha traz para o pai doente suscitam nele tanta energia e comoção que equivale a um coquetel de vitaminas. 

Fazê-lo acolher a condição humana: Normalmente o paciente se interroga perplexo: “por que isso foi acontecer comigo, exatamente agora que tudo na vida estava dando certo? Por que, jovem ainda, sou acometido de grave doença? 
"Tais questonamentos remetem a uma reflexão humilde sobre a condition humaine que é, em  todo o momento, exposta a riscos  e a vulnerabilidades inesperadas.

Quem é sadio sempre pode ficar doente. E toda doença remete à saúde, que é o valor de referência maior. Mas não conseguimos saltar por cima de nossa sombra e não há como não acolher a vida assim como é: sadia e enferma, bem sucedida e fragilizada, ardendo por vida e tendo que aceitar eventuais doenças e, no limite, a própria morte.

É nestes momentos que os pacientes fazem profundas revisões de vida. Não se contentam apenas com as  explicações científicas (sempre necessárias), dadas pelo corpo médico mas anseiam por um sentido que surge a partir de um diálogo profundo com seu self  ou da palavra sábia de um parente, de um sacerdote, de um pastor ou de uma pessoa espiritual. Resgatam, então, valores cotidianos que antes sequer percebiam, redefinem seu desenho  de vida e amadurecem. E acabam tendo paz.

Acompanhá-lo na grande travesia: Há um momento inevitável que todos, mesmo a pessoa mais idosa do mundo, devem morrer. É a lei da vida, sujeita à morte: uma travessia decisiva. Ela deve ser preparada por toda uma vida que se guiou por valores morais generosos, responsáveis e benfazejos. 

Mas, para a grande maioria, a morte é sofrida como um assalto e um seqüestro, gerando sentimento de impotência.  E então dá-se conta de que, finalmente, deve se entregar. 

A presença discreta, respeitosa da enfermeira ou do enfermeiro ou do parente próximo ou da amiga, pegando-lhe a mão, sussurrando-lhe palavras de conforto e de coragem, convidando-o a ir ao encontro da Luz e ao seio de Deus, que é Pai e Mãe de bondade, podem fazer com que o moribundo saia da vida sereno e agradecido pela existência que viveu. 

Sussurrar-lhe ao ouvido, se possui uma referência religiosa, as palavras tão consoladoras de São João: Se teu coração te acusa, saibas que Deus é maior que teu coração (3,20). Pode entregar-se tranquilamente a Deus, cujo coração é de puro amor e de misericórdia. Morrer é cair nos braços de Deus.

Aqui o cuidado se revela muito mais como arte que como  técnica e supõe no agente de saúde densidade de vida, sentido espiritual  e um olhar que vai para além da morte. Atingir este estágio é uma missão a que o enfermeiro e enfermeira e também os médicos e médicas devem buscar para serem plenamente servidores da vida. Para todos valem as sábias palavras

“A tragédia da vida não é a morte, mas aquilo que deixamos morrer dentro de nós enquanto vivemos”.

* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor de 'Vida para além da morte' (Vozes, 2012).

terça-feira, 19 de março de 2013

FERNANDINHO BEIRA-MAR TORNA-SE ALUNO DE TEOLOGIA


O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira Mar, que atualmente cumpre pena no presídio federal de Catanduvas, Oeste do Paraná, iniciou um curso à distância de Teologia. Ele já recebeu a primeira apostila do curso que tem duração de 3.180 horas. As matérias são aplicadas pela Faculdade Teológica Batista do Paraná (FTBP).

Desde o ano passado, outro detento de Catanduvas faz o mesmo curso e, recentemente, durante um culto no presídio, ministrado pelo capelão carcerário e pastor Luiz Magalhães, da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, Beira Mar demonstrou interesse pelo curso e passou a questionar o religioso sobre assuntos ligados a fé. Foi o próprio capelão quem apresentou o curso ao presidiário mais famoso do Brasil.

No final do mês de fevereiro, Beira Mar prestou o vestibular dentro da cela, foi aprovado e fez a matrícula. Todo o processo teve acompanhamento judicial. A mensalidade do curso, que gira em torno de R$ 242,00 é totalmente paga pela Igreja Batista do Bacacheri.

O diretor da FTBP, Jaziel Guerreiro Martins, disse acreditar que está havendo uma mudança na vida de Beira Mar. Para ele, o fato de o traficante ter admitido crimes durante o julgamento da semana passada e dizer que pretende pagar o que deve à Justiça é uma demonstração de mudança de comportamento. Durante o júri, Beira Mar revelou que estava cursando Teologia, admitiu alguns crimes, disse que sofria muito e queria pagar o que deve à Justiça. “É quase impossível alguém como ele fazer uma declaração desta se não estiver motivado por uma mudança”, frisa o diretor que também é que é mestre em Teologia pela University of Birmingham (Inglaterra) e doutor em Ciências de Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.

Em e-mail enviado para alunos e professores da FTBP, o diretor da instituição disse que talvez após cumprir os 30 anos de prisão Beira Mar poderá pregar e agradecer a oportunidade de ter conhecido a Cristo Jesus através do trabalho da faculdade no presídio. “Só Deus vê o coração e não podemos ter plena certeza se é algo sincero ou não. Mas estamos fazendo a nossa parte,”, afirmou no e-mail.

O Ministério da Justiça informou que todos os presos têm direito ao acesso à educação conforme prevê a Constituição Federal e a Lei de Execuções Penais. Além de Beira Mar, outro preso que cumpre pena em Catanduvas faz o curso superior a distância e 10 cursam o Ensino Médio. Atualmente 116 presos de diferentes partes do país estão recolhidos no presídio do Paraná, primeira unidade prisional federal inaugurada em 2006.
Fonte: FOLHA e Gazeta do Povo